Publicado por: Lorene | 03/03/2012

Tragédia em coma consciente.

A cada decepção que aparece, a tristeza se levanta em flores murchas de um outono seco. O abandono está no olhar daquela que já não vê tantos motivos pra sorrir. Pelo menos por hora. Ai, fase indigna, que sempre visita. Independe de gestos, palavras de conforto.

O sol magânimo que, com suas explosões, tenta lhe chamar a atenção, sente à essa distância de anos-luz seu coração com menos força, menos alegria. Bate somente por obrigação de te manter um ser vivo. Ainda.

Os olhos inchados por uma noite tensa, tenra de prantos, minguada de sonhos. Olhos estes cansados de não verem substância nos seus semelhantes. E o individualismo é rei, mais uma vez. E mais outra.

Cortar-lhe-ia os pulsos, dignamente. Individualismo não deveria combinar com os dias que temos vivido. Cada um com suas coisas, suas superficialidades. Ausentes de muitos olhares a quem está ao lado, tentando.

E a cada decepção que aparece, a tristeza se levanta em flores murchas de um outono seco.

Publicado por: Lorene | 13/02/2012

Listras.

Sorri com os olhos, fala com o coração, provoca com a alma. Ela toda. Aura que deixa em dúvida, e por isso torna-se sedutora a quem percebe um fúcsia meio condensado com laranja de um pôr-do-sol ao fim de um dia forte.

Acima da cabeça, fios enrolados impossíveis. Em aberto, quem quiser domá-los, tente. Mas será em vão. Inspira confiança? Não sei, hein… Minha mãe sempre dizia que sorrisos como estes que vêm de encontro a mim seriam perigosos.

Mas perigo assim tem gosto de filme de Hitchcock, de tela de Dalí, de poesia de João Cabral. Arquitetado para te levar consigo num simples passar de olhos pelos seus.

Teria gosto maior de aventura outro ser, nessa terra de ninguém, que chega a causar um gosto asséptico de sangue na boca?

A harmonia de um rosto singular em meio a “tanta babaquice, tanta caretice”, como diria Cazuza, principalmente se tivesse conhecido o moço-de-listras.

Enigmático, poético, poeta. Um quase-flutuante dentre os seres outros [nós] que caminhamos a passos largos.

Ele não. Ninguém conseguiria imitar uma forma de alternar as passadas pelas calçadas como a dele.

Ele, o moço-de-listras, que pela mão pode puxar um corpo todo contra o seu sem deixar qualquer rastro.

Moço que passa. Mas fica. Mas perdura. Mas permanece.

Moço-de-listras que, enaltecido num sorriso, enaltece o meu.

Publicado por: Lorene | 13/02/2012

Tolo e tolido devaneio.

A poética dos dias que passam parece tornar-se mais cruel, vil e imperativa. Crer nisso não é necessário já que, pelo visto, está aí aos olhos de quem quiser ver. Ou, ao menos, perceber.

Fogo por todos os lados, entre as pessoas, no rosto de tantas. Inclusive das nossas. Conflitos, faces sérias e ouvidos ensurdecidos por uma voz que parece ser invisível.

Aos ouvidos nus.

 Nada demais, só um pensamento vago que, ao (e se) colidir com outro gera o caos.

Músicas tortuosas como marca de uma época em que sobrevivemos à base de nicotina, amizade e amor.

Amor? Será? Incondicionalmente?

Nicotina? Será? Inevitavelmente?

O baseado de nossos dias nunca foi tão quisto. Ou necessário.

Um pouco de anestesia, um pouco só, nesse mundo que parece uma ciranda sem freio.

Sem começo. Muito menos com fim.

Corte, fissura, boicote. Furar, suspender, vetar, submeter. Palavras (verbos ou não) que, mal começado o ano, já enunciamos pelas ruas, esquinas e através das portas na quente Maringá. Nós, que tanto queremos uma profissão, um lugar que nos seja de direito, uma vaga digna em uma universidade com os devidos respeito e consideração, percebemo-nos com entraves, impasses, impedimentos e, clara aos olhos de quem quiser enxergar, atos (vândalos) de repressão.

Nos querem pelas ruas, com suor escorrendo de rostos já cansados, sem ter por quê lutar, ou mesmo força para. Tentam isto com um estalar de dedos, lançando decretos que simplesmente nos deixam de mãos atadas. Tomara não consigam atar-nos em pensamento e em pés para batermos forte neste chão de terra vermelha, a cada dia mais difícil de ser um lar.

Governo estadual corta doze milhões de reais de um orçamento, partido da universidade, de pressupostos [e requisitados] vinte. Oito milhões? Sim, essa é a conta das migalhas que restam. Se é para chutar um nome, que seja no mais provável: Universidade Estadual de Maringá é o nome dela. Como se já não bastassem as dificuldades existentes e que pelas devidas melhorias lutamos desde 2011, mais essa nos assola os corações que teimavam [e creio, ainda teimam] com uns pingos de esperança no diálogo, na responsabilidade e, principalmente na ética dos órgãos administrativos da nossa universidade.

Bolsistas que contam com esse alívio no orçamento pessoal para pagar suas contas, agora têm de sofrer por um acerto de contas mal feito. Se há má administração de gastos por parte do governo estadual, deveria ser problema dele. Pois é, deveria. Se há um péssimo gerenciamento dos próprios atos enquanto universidade, quem ocupa as devidas cadeiras responsáveis por ela é quem deveria estar à frente de todo e qualquer ato contrário a um corte como esse, que prejudica diretamente toda uma instituição. Pois então. Mas, pelo andar das coisas, é cada reitor por seu próprio umbigo e nós, estudantes, por todos.

Entenda-se “todos” funcionários, professores e enfim, estudantes. Não que estes rótulos não “confundam-se” entre si, mas didaticamente é isso. Não há mais bolsa de estudo com o patrocínio direto da UEM. Como os possíveis orientadores passarão a se virar sem os orientandos remunerados que tanto engordam seus currículos e os faz “andar pra frente” em termos de pesquisa, com suas trocas de inquietações e questionamentos? Como ficará nosso restaurante universitário, sem bolsistas-trabalho e com déficit de funcionários? Tem como piorar? De acordo com os excelentíssimos que têm dado tamanho vexame, sim. Já começou pior. Não há como negar a possibilidade de que vá mais ao fundo ainda.

A regrinha básica “bola de neve” nunca funcionará tão bem quanto com esse corte de verba. Começa com a “base”, os estudantes e funcionários que dependem destas bolsas para, sim, sem drama, SOBREVIVEREM. Que mais eles farão? E a nós restará esperar, sentados, que a grande massa de “neve” já inchada de tanta podridão nos afogue, mate, cale? Espero [esperamos] que não. Lembrem-se: ocupamos uma reitoria com pés, mãos e corações corajosos. Não será possível que nos vençam após aqueles oito dias [simbolicamente] de força e enfrentamento.

Se conseguimos e vencemos um chão gelado à noite, horas sem dormir, dedos de desprezo e condenação em nossas caras, justamente na “toca do lobo” [vulga reitoria],  não será do dia para a noite que desistiremos, certo?

Certo.

Será possível a poesia ter se calado, a luta acabado, o sorriso fechando-se sorrateiramente, como que imperceptível a olho nu?

A ressurreição dos mortos – poetas – mortos teve fim? Ou estariam eles [nós] vivos, a esbravejar e, do outro lado, apáticos espectadores somente observando a vã “loucura” daqueles que provavelmente estariam fora de seu juízo?

E seria somente sonho este, este aqui, de um mudo melhor, de menos injustiças, menos desigualdades e tudo o que cansamos de tanto repetir nas assembléias e mesas de bar? Tanto a se fazer, mas perecem diante de nossos olhos tantos castelos [provavelmente arenosos, mais uma vez].

Inquieto-me eu, inquieta-se você aí, com tantas asperezas com que nos deparamos. Tantos solos escassos de húmus necessários a uma fertilidade que nos é de direito, oras. A terra cansou-se de tentar? Ou está enfadonhamente cansada de tantos reclamares, falares ao vento e nada de fazeres por seu bem, por uma menos cansada vida? Onde estaria essa nossa terra?

Morrer, então, com alguns tiros contra nossos peitos angustiados [como a García Lorca], mirando algumas flores do campo enquanto, finalmente, desfalecemos? E isto seria antes ou depois de enfrentar as mazelas que reclamamos? Porque, amigos, depois de morto se faz história com seu nome, mas não com seu punho, ali, presente, fervendo e sangrando. Porque fez.

Fazemos, enfim?

Ou simplesmente morremos [ou morreremos] assim, no fim?

Publicado por: Lorene | 06/01/2012

(Di)vagares.

Há o estranhamento e a reclusão nesses últimos tempos. Até penso em um possível exagero dessa “anti-sociabilidade”. As tarefas pelos dias são as mesmas que do início de um período não-letivo como este, só que realizadas com menos caráter valorativo [por há tanto não realizá-las na dita "casa da mãe"]. Pois então. Como diria um verso de uma música: “limpar os copos, contar os corpos”. Talvez uma forma de ver, realmente, essas tarefas diárias. De qualquer modo, continuam me doendo as injustiças, do tipo limpeza social, hipocrisia racial, discussões sobre o sexual… tudo isso. Continuam me entristecendo as faltas. E os excessos também. E, o preço pago por um pouco menos de alienação que a de outrora [voltamos ao princípio]: o isolamento. O ser anti-social que me vejo. Uma ilha, talvez. Espero que temporariamente. As exigências aumentam, logo, como já previsto, as identificações interpessoais minguam. Preço que se paga. É? Ou eu que sou a chata nesse mundo-chato e sem jeito? E eu? Tenho jeito? E/ou preciso? Acredito numa negativa, aqui.

Cré com cré, lé com lé. Eu vivo o mundo que mereço. Será?

Só sei que tem me feito bem. Sim, reclusão [sem apatia], amargor [um pouco mais é possível] e o tal medo de gente que tenho vivido [não sem qualquer forma de comunicação com o mundo externo a mim]. Só voltei, enfim, o olhar para dentro e lembrei que gosto de muitas coisas. E que as encontro bem perto: nessa subjetividade que tenta, ao menos, produzir formas outras de subjetivação.

[Não sem algumas ajudas filosóficas, sejam de boteco ou nas páginas dos livros já rabiscadas].

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