Do luto à luta.

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Marielle, AXÉ!

As lágrimas finalmente caíram quando vi Ilu Obá de Min cantando a Oxalá, rogando por justiça e, por meio daquelas vozes e mãos, celebrando sua vida e sua nobreza. Filha de Iansã, não à toa o céu do RJ relampejava com toda força. Nossa mãe certamente enfureceu-se. Retiraram a vida de uma de suas filhas.

Oni saurê / Aul axé / Oni saurê / Oberioman…

Lembro nitidamente que celebrei entusiasmada sua eleição a vereadora, como 5ª mais votada no RJ. Não sei, ao certo, se tenho o direito de me reportar a você e lamentar sua partida. Eu que, como branca, não sei metade da sua luta, não vivi nada do sofrimento que você tanto fez e faz ecoar, desvelando a todos estes olhos que invisibilizam o povo negro.

Oni saurê / Aul axé babá / Oni saurê / Oberioman / Oni saurê…

Te senti próxima justamente no momento em que te soube também filha de Iansã. E que, como tal, carregava nos olhos o brilho e a força de nossa mãe. Nós, filhas dessa orixá de guerra, somos transmissoras da velocidade de suas ventanias. Recarregamos nossas forças a cada relâmpago que desce do céu e toca o solo. E você, como ponta de lança das cores e voz de Oyá, incomodou hegemonias historicamente instaladas nessa terra que é sua e do povo que você representa.

Babá saurê / Aul axé / Baba saurê / Oberioman…

Eu custo a crer que a interrupção da sua vida aqui estivesse nos planos de Iansã. Você fez tanto… E havia tanto mais a ser feito! De minha parte, obrigada. Permaneço sem rumo, garganta presa, pensamento solto, sem saber por onde ir. Mas com a esperança de que a sua ida signifique rompimento dessa ordem odiosa que te fez sangrar e faz, todos os dias, a tantos dos seus. E, caso me seja permitido, mantenho-a como exemplo de mulher de luta. Quando penso em Oyá, é seu rosto que me vem à mente. Daqui, sigo entoando em sua homenagem um canto que te re-significa a mim:

“Eparrey, ela é Oyá, ela é Oyá!

Eparrey, é Iansã, é Iansã!

Eparrey! Quando Iansã vai pra batalha, todos os cavaleiros param só pra ver ela passar!”

Marielle, negra, lésbica, mãe, favelada e de esquerda: PRESENTE!

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Da morte.

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Sinto falta de um tempo em que a esperança habitava em terreno mais fértil aqui dentro. Falta dos trabalhos em equipe, seja política ou profissionalmente falando. Falta de me sentir útil a alguém externo às minhas redes de afeto.

Algo aqui está morrendo.

Vejo padrões se repetirem todo o tempo. Miro cenas idênticas às que eu presenciei nos meus poucos 12 anos de vida. Não gostaria, mas tem acontecido.

Frustro-me ao olhar no espelho com os mesmos olhos inchados daquela época. E ao lidar de maneira idêntica, ou muito similar aos episódios em que sentia tremer todo meu corpo por raiva.

Acreditei (tive esperança) que jamais iria presenciar aquilo novamente. Agressividade, hipocrisia, cobranças por padrões que já não me pautam faz muito tempo. Meu corpo é político, mas se eu não reitero isto a todo o momento, parece que tudo isso aqui não passa de uma massa amorfa, invisível.  Isso cansa, arrefece. Meus propósitos de vida são invisíveis aos olhos de quem nega que não sou a princesa projetada antes mesmo de meu nascimento.

E isso dói nestes olhos outros que não me enxergam. Mas, principalmente, em mim.

Do topo de meu privilégio branco, assisto partes sem mais forças para resistir. Minha autoestima sendo compelida a estar sempre por um fio; minhas crenças reduzidas a superstições; minha força de trabalho negada; meu afeto descartável e, enfim, minha saúde mental reduzida a pó.

Os motivos que me fazem levantar da cama todos os dias são, ironicamente, os mesmos que me golpeiam o rosto com força tamanha. A sensação é de que o peso de um bloco de concreto me rompe inteira, me parte ao meio.

Acreditei que não mais voltaria a escrever sobre dores. Errei.

Mais uma vez.

Algo nitidamente está morrendo aqui dentro. Temo pelo próximo “vir a ser”.

Eu sei que “sou meu próprio lar”. Mas essa casa está uma bagunça.

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A poeira das coisas

Tantas vezes me relacionei com pessoas invisíveis, inexistentes. Criei várias delas e não soube lidar depois. É difícil não idealizar cada momento futuro, cada passo a ser dado. É terrível forçar-se a não criar expectativas sobre coisas, acontecimentos e pessoas. E nos dizem a todo o tempo que não podemos, de fato, cair nessa “armadilha”.

O fato é que fazemos tudo isso, mesmo crendo que não, mesmo com incisivos momentos de autocontrole extremo disfarçado de autoconhecimento. As situações nos exigem a força que por vezes nem existe. E tudo bem não tê-la da maneira esperada ou no tempo exigido. Pode-se construí-la ou deixar que o tempo resolva. Difícil é acreditar que isso é possível e conseguir caminhar essa trilha.

É perigoso não se olhar com honestidade. Por mais difícil e dolorido que seja, nossas fragilidades, defeitos e traumas não devem ser postos embaixo dos tapetes da vida. Complexo é na prática.

A vontade é isolar-se. Às vezes possível e saudável. Conseguir, também, ficar somente com nossa companhia, é meio caminho andado. Deixar que raiva, tristeza, mágoa, emerjam.

Lidar com seus demônios é necessário, tenha certeza. Repito isso ao espelho quase que diariamente. A formatação social padrão não me contempla faz muito tempo, seja ela qual for. E quando me vejo careta, com valores considerados ultrapassados pela minha geração, sofro novamente. Prefiro silenciar, tantas vezes, em determinados debates, por saber que não vou receber em troca o melhor tratamento. Eis mais um medo.

O problema é que silêncio torna-se sintoma. E, uma vez mais, sou forçada pelo meu psiquismo a lidar com as causas.

Cansaço social, esse fiel companheiro que volta e meia me visita e me força a limpar a poeira das coisas, situações e pessoas. Cruel, porém, com razão de existir.

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Oceano.

Há tanto para lidar. Meu corpo tem sido oceano que transborda, que invade continentes. Alertas, pedidos de ajuda que não sei decifrar. Me saltam os sintomas.

Assim também a impotência de uma existência que se reconhece frágil, mesmo com a casca de tamanha força. Como é difícil assumir vulnerabilidades, inseguranças, tristezas, desafetos…

Mais fácil é manter-se sorrindo, mesmo que pouco acima do lábio superior haja marcas explícitas de que algo não está equilibrado.

Minha pele, couro de búfalo, é o mapa de todos os dias percorridos e os que anseio atravessar. As (poucas) imagens que me territorializam dizem tanto sobre quem eu desejo ser…

A agulha que transmuta tinta em curiosidade, dor em prazer, sempre foi visitada em momentos de grande rompimento, grande dor. Grande amiga, barulhento e sensível auxílio ao transmutar fases, virar páginas, forçar mudanças de ciclo.

Percebo-me tão mais adulta (ou velha?) desde o último texto. As lágrimas que reclamam controle dos sintomas de ansiedade invadem meu peito. Parece-me que, quanto mais ganhamos idade, mais fortes são os sinais do peso irremediável da vida.

Não sei ao certo porque choro. Nunca soube. Dar nome às coisas é difícil. Tenho músicas tão minhas e tão específicas que fazem com que todo esse processo flua. Eis um de meus maiores motivos de gratidão.

Oceano, essa relva líquida que invade o que for preciso. Oceano, tão imponente, mas que sabe recolher-se quando necessário. Retrocede em seus horários de transmutação. Este mesmo elemento me faz sorrir e chorar sem que eu perceba de imediato.

Sem começo nem fim.

E eu?

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Vida dentro da vida, ainda.

As palavras fogem. A dor que toma conta da pele, do sangue, dos músculos é inenarrável. Eu, assim como tantas e tantos dos meus, busco signos, significados, substantivos, adjetivos. Há que se criar novas definições para sentimentos, emoções nossas. Conceitos que deem conta de tamanha barbárie. Não temos mais recursos suficientes no mundo das palavras. A História corre, passos largos, sem olhar para os lados. Nós, sob efeito da analgesia gerada por tantos acontecimentos, andamos em círculos. Não há espaço para esperança substancial nesse exato momento. O cansaço não deixa. Em todos os âmbitos, estamos em déficit. Saldo negativo no contexto cru que é a vida.

Essa mesma vida que me exige velocidade também ao escrever estas linhas. A pressa da rotina, o vértice infinito dos protocolos. A falta de afeto. Ou a falta de tempo para ele, já que precisamos sobreviver ao caos subjetivo e objetivo. Excesso de informações, consciências levianas, desumanização de seres humanos. Vivos ou mortos.

Caos, caos, caos. Viés apocalíptico irreversível e que nos atravessa feito bomba.

Lacrimogêneo moral e cívico.

As ideias embaralham-se, a voz falha. O choro está ali, mas é tanta coisa, tanta velocidade, desgraças, velocidade ainda, que suas gotas salgadas sequer ganham espaço para invadir nosso rosto. Sei de mim e, sabendo assim, sei também dos meus. Abraçamo-nos para tentar aliviar uma dor que parece não ter fim. Dor calada, dor instalada. Dor esta que se assemelha à do luto, à retirada de pedaços nossos, um a um. Sempre nos retiraram partes. Mas a esta velocidade? Os abraços, os pedidos de colo…nada suficientes. As palavras retomam o movimento de definição, tentativa falha. Os desabafos que não aliviam, o choro contido, o sorriso forçado, a certeza de que nada está bem. E está longe de ficar.

Há que se criar vida na vida. Caso nos seja permitido, ainda, viver. Se o choro lhe toma o rosto, uma nesga de felicidade me invade, certamente, por ti, já que aqui ele tarda em vir.

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Pertencimento e não-lugar.

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Não-pertencimento faz parte de meu cotidiano, com alguns intervalos. Intervalos estes são originalmente locais, territórios, que me deram aconchego e descanso. Daqueles lugares que parecem te pertencer desde a primeira pisada ao chão, quando do desembarque.

A cidade em que nasci há muito tempo me incomoda. Costumava dizer que não gosto dela. Até desprezo enunciei. Hoje sei que nunca foi minha. Demorei a alcançar essa conclusão. E há diferença entre não gostá-la e não sê-la. O estranhamento que tenho por estas ruas, este céu, estas pessoas, estes locais aos quais chamam “praças”, “parques”, nunca o foram, de fato, para mim. E não há grande problema nisso. Só constatação de um fato.

Tenho minhas pessoas aqui, obviamente. Ninguém sobrevive por muito tempo, sendo subjetivamente saudável, isolada de qualquer ser humano outro que nos abrace, que nos traga novidades, goles risonhos de cerveja e decepções compartilhadas. Os famosos “ah, sim, já estive aí, darling”.

Porém, pessoas movem-se. Devem mover-se. O comodismo não pode ser bom. Ou é, mas não há este reservatório com muita profundidade em mim. O limite está tão próximo e distante ao mesmo tempo!

Penso nas possibilidades de mudança e meus olhos ganham brilho automaticamente. o dado mais importante nisso tudo é sempre ter sonhado com grandes cidades. E, por óbvio, concluir que a cidade em que habito (mas não me habita) é pequena demais pra mim. Devo lidar com isso. E lido. Acreditem, lido todos os fucking dias com isso. Em todos os amanheceres, sejam eles nublados ou cheios de sol.

Mas o pouco de sabedoria que ganhei nestes 28 anos percorridos me mostra que, para chegar lá onde meus pensamentos levam, há que se percorrer a estrada. E esta, caros, é a chave do castelo. E aqui, talvez, o motivo de compartilhar tais divagações com quem me lê. Sonhe, sim. Mas imagine que para alçar esse vôo, uma trilha deve receber seus passos. Ela pode ser longa, curta, pedregosa, escorregadia, perigosa. E você só saberá suas características no momento em que atravessá-la. Nós não prestamos atenção aos processos pelos quais passamos. Por mais que tentemos. Nossas ambições e ansiedades nos levam à frente, além do suportável.

Somos construção, portanto. Construimo-nos o tempo todo. Deveríamos atentar a isto. Se desejo voar para longe, preciso preparar-me para todo o desconhecido que encontrarei. No mínimo, preciso de resistência suficiente para que eu aguente o trajeto. E é isso que me faz acordar todos os dias. Saber que o hoje é a construção de um amanhã que virá e deste lugar-outro que, então, pertencerei e me será pertencente.

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As pálpebras pesam, as lágrimas são chumbo.

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As dores de uma derrota que não é somente sua inciam um transe por todo um corpo (miseravelmente humano) que já não aguenta tanta estupidez. Em terra de cego… quem tem olho enlouquece. Os questionamentos são inevitáveis, o ódio consome, corrói as estruturas dos músculos, nervos e ossos. A impotência domina todos os neurônios e a sensação de vergonha são insuportáveis.

“Aguente firme”, dizem. O que, exatamente? A sombra tenebrosa de um histórico golpe de Estado? O peso (que já alcança as toneladas) de prosseguir (con)vivendo, na sensação iminente de conto de fadas, que logo terá finais fragmentados e trágicos? O medo de ver “ao vivo e a cores” anos de chumbo como as letras de Chico tão bem não nos deixam esquecer (nem devemos) que existiram?

Mas, ah, a impotência.

Difícil vencê-la. Difícil pensar que posso. Que podemos.

Desistir de lutar, mais do que nunca, não é opção. Mas somos tão pequenos. E tão mesquinhos. E tão ignorantes. A “grande” massa vai às ruas das principais capitais do país sem atenção do planalto central. Pressão popular já não se mostra como grande moeda. É moeda, mas não a principal. Não a que faz diferença. Quantos e quantas mais precisarão morrer para que…

…para que, afinal?

As pálpebras pesam e insistem em se manter a ‘meio mastro’, em ‘farol baixo’. Resultado de exaustivos sentimentos esperançosos de que golpes são out neste nosso século bizarro, nos altos de nosso 2016. Quem diria?

Sinto-me envergonhada de estar nesta posição impotência-sofrimento-fraqueza, sendo que a mulher pessoalmente traída é justamente quem nos pede força e demonstra tê-la de sobra. Não me sinto no direito de sofrer, mas lutar. Só que, sinceramente, difícil aumentar neste momento a amplitude de meus olhos. Sinto no peito uma dor que há tempos não sofria. Fanatismo político? Não, definitivamente. Infarto? Aí já deixo em dúvida. Tristeza, profunda e indisfarçável? Sim, essa mesma.

Por ser mulher, por acreditar na vida e história de Dilma Vana Rousseff, por vê-la como exemplo, por ter vontade de chorar como criança em seu colo de mãe-vó, estas lágrimas correm. E por mais um punhado de coisas que, talvez, não tenham relevância agora. Afinal, sou eu este mísero grão de areia em meio a muita contradição.

Que somente as lágrimas sejam de chumbo, e não a repetição do que já tivemos em nossa História, de mesmo ‘peso’ e medida.

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