Quando um historiador me possibilitou insights (ou: da adicção que é o FB).

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Tenho muitos vícios. De linguagem, organização, os que permeiam os pragmatismos para que eu consiga seguir vivendo. Meu funcionamento obsessivo começou a ficar fora do meu espaço de percepção e reconhecimento nas últimas semanas. Estranhei, ao retornar de uma maravilhosa viagem de visita a amigos e amigas que, enquanto com eles estava, a vida parecia plena em sua beleza. E, assim que retornei à vida que nunca deixou de me esperar, no território onde realizo minhas intervenções mais cotidianas e imediatas, uma tristeza assolou toda minha subjetividade. O desespero imediato foi: não havia nome ou razão explícita para este “estado” em que me percebi. Permiti que a tristeza tomasse mais espaço na tentativa de, assim, dando voz a ela, encontrar sua razão de existir.

Comparei-me fora e dentro do meu contexto: o que havia mudado de um fim de semana, para a segunda imediatamente em sequência? Eu não havia acessado uma vez sequer o facebook. Mas ainda com esta dica maravilhosa, nada encontrei. Até que, numa das noites que se seguiram, os insights iniciaram seu lindo movimento e as coisas ficavam cada vez mais clarificadas e óbvias. Vou contá-las a vocês de maneira objetiva. Tão objetiva que elencarei em tópicos, para que fique mais palpável. Refletindo sobre o que mudou em mim após a chegada desta rede social, em todos estes anos de uso assíduo, uma enxurrada de elementos me atravessaram instantaneamente. São eles:

  • Tornei-me preguiçosa além do aceitável. Comecei um movimento de ler manchetes sem necessariamente abri-las em uma nova página.
  • Passei a deixar as notícias, de todas as esferas, me afetarem em demasiado, sofrendo a cada novidade relacionada ao cenário político nacional, internacional, às questões de violências diversas, enfim, tudo.
  • Passei a ver a felicidade das pessoas expostas nesta vitrine como motivo de percepção do meu fracasso enquanto ser humano, afinal, eu não fazia sequer metade do que as mais bem-sucedidas que eu fazem (isso seria minha neurose falando, aos berros. Se é verdadeiro ou não este ‘fracasso’, já não tenho certeza).
  • Como consequência dessa afetação das vitrines alheias, comprei minha própria vitrine e entrei no mesmo fluxo. Todo e qualquer motivo de minha felicidade passou a ser compartilhada (até porque, dada a “concorrência”, não havia muitos motivos para contentamentos). Uma nova flor que se abria no jardim: fb. Uma receita nova: fb. Um novo local de atuação profissional: fb. Até minhas pretensões passaram a ser expostas ali.

Como consequência imediata, estranhei, ao encontrar amigos em outra cidade, não haver muito o que contar, sequer elementos que eles quisessem saber sobre mim. Por quê? Eles já acompanhavam os incessantes e cansativos processos pelos quais eu atravessava e era atravessada – via fb. E não é óbvio?

Não para mim e, tenho certeza, também não o é a muitos. Eu sequer cogitava esse excesso de vida virtual, como uma extensão do meu corpo orgânico e subjetivo. Hoje percebo e sigo na tentativa de, por meio das possíveis abstinências, crescer e voltar a me singularizar, independentemente e alheia a esta rede social. Dentre os elementos que percebi serem motivos causadores de tamanho desconforto e que transformou minha vida em um só tom de um gigantesco cinza, estão:

  • Toda e qualquer atividade que é realizada em plataformas como Google transforma-se em anúncios na sua timeline, no fb. Isso é insuportável.
  • As notícias chegavam aos meus olhos e subjetividade em um ritmo aceleradamente incontrolável. Mesmo das páginas que, obviamente, eu escolhi seguir. Muitas delas com os mesmos tópicos de notícias entre si.
  • Toda e qualquer afirmação preconceituosa, polêmica ou ignorante, por parte de pessoas que estão contidas na minha TL, gerava angústia inenarrável de minha parte, com mãos e pés atados para qualquer providência que quisesse tomar.
  • As páginas que sigo e que têm site próprio, para além do domínio facebookiano pararam de ser, por mim, acessadas. Afinal, tudo que elas noticiariam estaria ali em instantes.
  • A felicidade exposta pelas pessoas passaram a ter tom de ilegitimidade e o tom estrito de necessidade de auto afirmação.

Todos estes pontos elencados vieram à tona de maneira concreta após assistir uma passagem do historiador Leandro Karnal sobre a felicidade postada e vendida em redes sociais como, de fato, uma droga que exige de seu usuário sempre uma dose maior (vídeo abaixo). Parecem constatações óbvias e que todos e todas já temos consciência no “contrato inicial” deste uso, como consumidores que somos. Porém, a  mim, não parecia tão grave, sério e com consequências alarmantes neste ponto. Sempre selecionei muito bem quem ‘seguir’, que páginas acessar, que pessoas acompanhar. Mas acabei provando de meu próprio veneno: engajamentos, sofrimentos, percepções sobre o mundo e a vida, todos reunidos em uma só página, com atualizações constantes. E todos motivos de extrema empatia e identificação minhas. Sim, pode parecer motivo de saúde mental, já que foi a maneira que escolhi de arquitetar o que eu gostaria ou não de visualizar. Mas não, em grande medida só proporcionou maior dor, maior sofrimento, maior impotência, maior pessimismo em relação ao estado das coisas.

Eu quero acessar matérias nos momentos em que me dispor a isto. Voltar a acessar páginas nas quais confio, sem maior ou menor pressa, somente no meu tempo. MEU TEMPO. A avalanche de informações não me cabe mais. É sofrimento em demasia e que acaba por esgotar todas as minhas forças antes mesmo de o combate ter início. Sei que estas mesmas pessoas de quem compartilho angústias, posicionamentos políticos, dentre tantos outros, estarão ombro a ombro comigo nas batalhas que virão. Porém, virtualidade não faz revolução, nunca fez. As desconstruções que fazemos nestes espaços são pueris, frágeis. Hoje, olhando para essa página azul marota, percebo sua única função de manter contato com pessoas que me são importantes e que não estão imediatamente ao alcance de meus braços, e é confortável pensar que lá estarão, para uma conversa inbox. Espero ainda me desvincular desta percepção mas, enquanto ela me serve, que seja. Senti-me no dever de compartilhar destas percepções a quem quiser acessá-las. Talvez, a partir deste meu processo de tomada de determinadas consciências, mais pessoas o façam, antes que seja ‘tarde’. Não desejo a ninguém o estado em que me percebi, justamente pelo uso acumulado e excessivo do fb.

Hoje já consigo ver com olhos outros tudo que circunda minha vida, ficar feliz com a forma como ela se compõe e vem se construindo. Consigo o início de uma desvinculação dessa “Sociedade do Espetáculo”, como nos traz o pensador Guy Debord (livro este que super recomendo). Sinto-me tão feliz comigo e com mais esse passo que dei! Tomadas de consciência são essenciais para que prossigamos crescendo. E, talvez, meios como fb estejam nos impedindo de sermos o máximo de nossa potência na prática, no corpo a corpo. Pense sobre isso tudo. Desejo a vocês o uso moderado e saudável desse site. Com todo coração. Ver as coisas com mais cores, as ruas com mais vida, as pessoas como elas realmente são é inenarrável. Recomendo.

Fiquem, pra finalizar, com a sabedoria desse mestre dos magos do hoje:

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2 comentários sobre “Quando um historiador me possibilitou insights (ou: da adicção que é o FB).

  1. Consegui ler agora! Me sinto contemplada em todos os fatores e me sinto também aliviada de saber que partilhamos mais essa inquietação. Bom, só tenho a dizer que o texto está lindo, bastante repleto de você indignada e surpresa. Adorei! É nois, sempre <3

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