“Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro” (ou: volta, Belchior).

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Há decisões nessa vida que deveríamos cumprir, ao menos em uma porcentagem. Qual a dificuldade em mantermos palavras, deliberações que, por mais contraventoras ou controversas, são para nossa sobrevivência? As horas desta nossa geração escorrem pelas mãos e nos atravessam sem pedir licença alguma. Corremos por uma estrada pelo simples prazer (e necessidade, dizem) em correr. Correr e sempre mais.

Com pressa e sempre mais.

Sem oxigênio e sempre menos.

Sem coração e sempre.

Conviver com a expressão “moral e bons costumes” é de nausear qualquer ser humano que seja humano. Julgamentos diversos sobre quaisquer condutas tomadas por qualquer humano tornam minha existência mais pesada. Conviver em sociedade (ou ter de) me faz pensar o quanto somos canibais da subjetividade alheia. É o inferno em sua plenitude, sendo os carrascos pintados em contos bíblicos, bem da verdade, nós mesmos. E ponto.

Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro.

Morri com cada passo em falso que dei no sentido ao colo do outro. Não sabia dizê-lo vazio, até destroçar minha cara ao chão.

Morri a cada exercício de fanatismo, característica humana esta que percorre todos os hábitos e rituais humanos. Foi como se um membro meu fosse arrancado do corpo a cada cena desta categoria. E, a saber: dos mais exacerbados até os mais sutis. Estes últimos quase não detectáveis aos olhos e ouvidos nossos.

Morri a cada ato de egoísmo. A cada ausência de mãos estendidas para levantar outro ser vivo de sua queda ao chão (subjetiva ou não).

Morri a cada ausência de humildade em espaços onde ela é mote contínuo para que algo funcione.

Morri a cada olhar invejoso sobre qualquer, repito, qualquer acontecimento em uma vida outra. E que está aí para ser vivida, afinal.

Morri por ter praticado um pouco (ou muito) de cada item desta lista.

Mas esse ano eu não morro.

Morri pelas pessoas conhecerem somente uma parte deste eu que vos fala. E, principalmente: a parcela a que dou menos importância dessa subjetividade. E isto, amigos, é passível de morte.

Essa mania em estabelecer padrões para a vida em coletivo tem o talento de ocasionar a perda de um “eu” que é extremamente importante. A sensação de perder-se de si é um dos sinais dessa patologia que somos nós, humanos. O respeito ao “ser” do outro é raríssimo.

Neste novo-ano-novo não morramos. Não assim. Que cometamos erros outros, erros novos, não os mesmos de 1800 d.C.

Ano passado eu morri.

Mas esse ano eu não hei de morrer.

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