Pertencimento e não-lugar.

11063424_793179954094785_8579707437965100523_n

Não-pertencimento faz parte de meu cotidiano, com alguns intervalos. Intervalos estes são originalmente locais, territórios, que me deram aconchego e descanso. Daqueles lugares que parecem te pertencer desde a primeira pisada ao chão, quando do desembarque.

A cidade em que nasci há muito tempo me incomoda. Costumava dizer que não gosto dela. Até desprezo enunciei. Hoje sei que nunca foi minha. Demorei a alcançar essa conclusão. E há diferença entre não gostá-la e não sê-la. O estranhamento que tenho por estas ruas, este céu, estas pessoas, estes locais aos quais chamam “praças”, “parques”, nunca o foram, de fato, para mim. E não há grande problema nisso. Só constatação de um fato.

Tenho minhas pessoas aqui, obviamente. Ninguém sobrevive por muito tempo, sendo subjetivamente saudável, isolada de qualquer ser humano outro que nos abrace, que nos traga novidades, goles risonhos de cerveja e decepções compartilhadas. Os famosos “ah, sim, já estive aí, darling”.

Porém, pessoas movem-se. Devem mover-se. O comodismo não pode ser bom. Ou é, mas não há este reservatório com muita profundidade em mim. O limite está tão próximo e distante ao mesmo tempo!

Penso nas possibilidades de mudança e meus olhos ganham brilho automaticamente. o dado mais importante nisso tudo é sempre ter sonhado com grandes cidades. E, por óbvio, concluir que a cidade em que habito (mas não me habita) é pequena demais pra mim. Devo lidar com isso. E lido. Acreditem, lido todos os fucking dias com isso. Em todos os amanheceres, sejam eles nublados ou cheios de sol.

Mas o pouco de sabedoria que ganhei nestes 28 anos percorridos me mostra que, para chegar lá onde meus pensamentos levam, há que se percorrer a estrada. E esta, caros, é a chave do castelo. E aqui, talvez, o motivo de compartilhar tais divagações com quem me lê. Sonhe, sim. Mas imagine que para alçar esse vôo, uma trilha deve receber seus passos. Ela pode ser longa, curta, pedregosa, escorregadia, perigosa. E você só saberá suas características no momento em que atravessá-la. Nós não prestamos atenção aos processos pelos quais passamos. Por mais que tentemos. Nossas ambições e ansiedades nos levam à frente, além do suportável.

Somos construção, portanto. Construimo-nos o tempo todo. Deveríamos atentar a isto. Se desejo voar para longe, preciso preparar-me para todo o desconhecido que encontrarei. No mínimo, preciso de resistência suficiente para que eu aguente o trajeto. E é isso que me faz acordar todos os dias. Saber que o hoje é a construção de um amanhã que virá e deste lugar-outro que, então, pertencerei e me será pertencente.

Anúncios
Padrão

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s