Da depressão e esse contexto avassalador. Um texto bem sucedido sobre como essa relação é verossímil.

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A proposta desse texto é dar visibilidade a algo que tem me atravessado, assim como condensar as ideias sobre esse fenômeno. Talvez, com sorte (ou azar), você leitor e leitora, identifique-se com estas linhas, ou mesmo conheça alguém que esteja nessa. Vamos lá.

Tenho vivido os meses que contêm esse ano bizarro fundamentalmente dedicados à pesquisa e, por consequência, meu artigo de conclusão da pós que faço é o patrão. Páginas estas que, pretendo, transformem-se em uma proposta também de continuidade. A questão é que para grande parte das pessoas que me circundam, isso não se enquadra em uma forma de trabalho. Esta ótica tem sido por mim combatida com unhas e dentes (quase que literalmente). Óbvio que, em consequência, a pressão externa encontra um caminho sutil e acaba por percorrer as veias de todo meu ser. Transforma-se em pressão interna e a paz tem fim. É difícil lidar.

O foco aqui não é fazer mimimi por isso. Não, senhores. O foco é que identifico, desde o início deste programa de pós-graduação a que pertenço, alguns momentos em que a depressão quase me pegou pelos pés. E isso é, meus caros, a caracterização maciça de um problema. Pintei muitas telas e rasguei muitos papéis para que conseguisse instrumentalizar minha subjetividade e, nessa “onda”, driblar esse famosíssimo mal que tem assolado tantas milhões de pessoas por todo o nosso planeta. Nunca me imaginei nesse “lugar”. Formulei maneiras de trabalhar com esse psiquismo que me contém para que não precisasse voltar à psicoterapia. Casa de ferreiro, espeto de pau. Sim. Sou psicóloga, fiz cinco anos de terapia na vida, mas não, não quero retornar tão cedo. Não por acreditar, como muitos, que seria mais uma fraqueza minha em não poder caminhar sozinha. A questão é que tenho preguiça deste método de retorno à mim. Reencontrar espelhos, reviver discursos, atos falhos, negações…não. Quero não. Não por outra voz que não a minha.

Sim, é resistência. Ok. Prossigamos.

É praticamente impossível, a meu ver, e com minha maneira de funcionamento psíquico, manter-se saudável em plenitude neste contexto pífio em que estamos. Civilização pitu essa nossa. Cenas de tamanha crueza e crueldade a que temos acesso em que, sinceramente, Hannibal, the canibal tornou-se um exemplo de ética (com toda licença poética que me caiba aqui). Já escrevi sobre isso, sim. É que escrevendo, geralmente, eu encontro saídas. E eis aqui mais uma tentativa de. Labirinto sem fim. Nossa existência tem me parecido um jogo de pôquer com deus em que nada é tolerado, a não ser nossa derrota. Somos conduzidos a prosseguir com as apostas, ludibriados, porém, sem chance alguma de atingir o final da partida sem estar devendo um grana alta pra ele. E pior: estamos mais que viciados nessa jogatina. Fico pensando: até quando?

Vocês querem saber como driblei a depressão, certo? Primeiro que este último verbo não deve ser conjugado no tempo passado. Eu faço isso constantemente. Encontrei maneiras que se “encaixaram” bem nas falhas desse meu tetris mental. Eu vejo a depressão como uma sombra distorcida de nós mesmos. A chave é que ela tem possibilidades de dimensões diversas. Em algum momento pode estar ausente; no seguinte, maior que nossa estatura. Por igual, e assim sucessivamente. Sem exatidão, sem constância, sem realidades estanques. Lembremos aqui que depressão não se configura em “estar deprimido”. Não. E pra isso, artigos inúmeros estão aí pra que vocês tenham acesso na web. Depressão ronda, prepara o bote e morde. E a ferida é feia. Caso você a ignore, como muitos o fazem, ela vai gangrenar e arrancar um pedaço seu, senão você por inteiro. Tenha cuidado e atenção. É um conselho.

Eu resolvi olhar para mim sem filtros ou censura. Esse foi o início de um caminho bonito e autônomo. Recolhi-me dos estímulos externos e que acabam por influenciar todo movimento interno. Mas sem radicalismos. Aos poucos, de leve. Respeitando vontades. Caso a iniciativa e desejo em tomar uma cerveja com amigos fosse maior, eu escolhia esse caminho. Olhar para mim foi muito mais possível depois de entrar na prática SwáSthya Yôga. As técnicas corporais, respiratórios e de meditação cumpriram a tarefa de abrirem-me a mim mesma. O acesso ao meu interior hoje é muito mais fácil. Isso não quer dizer que seja um acesso rodeado de margaridas e girassóis. Não. Mas, juro a vocês: eu vi a face da depressão exatamente em frente à minha. Eu a conheci. Segurei em sua mão levemente e permiti que me levasse a conhecer como ela trabalha. Nesta ideia, ela tornou-se uma inimiga extremamente íntima. Tão próxima que, algumas vezes, consegue ser amiga também. Estabelecemos um contrato, depressão e eu, com cláusulas claras (e em constante construção) e objetivas. Eu sou extremamente racional, mental; preciso dessas coisas. O que interessa aqui são as cláusulas centrais: quando eu estiver negando algo, a contratada me mostrará, com a força e método que ela achar mais eficaz. Mecanismos de defesa nem sempre são o melhor caminho à nossa energia psíquica. Eles podem tomar conta de você por inteiro. E não acho bacana. Tornar-me um robô irreconhecível não é uma possibilidade. Outra: ela deve me dar espaço e possibilidade de reação. Ou seja: avisar-me de algo errado em seu início para que eu possa trabalhar isso e, consequentemente, da minha maneira.

Além destes itens contratuais, quando sinto que ela quer me observar muito próxima a meu cotidiano, trabalho com o que está disponível em meu psiquismo de maneira simples. A mais simples possível. Estabeleço tarefas de pequena complexidade em sequência de ação. Dou-lhe prazeres como literatura e música para que descanse. Converso com minha subjetividade para que ela não se sobrecarregue. Linguagem é a melhor invenção do ser humano e eu me aproveito dela. Parece loucura, sei disso. Mas esse diálogo é necessário. Eu respeito se tudo o que mais quero é ficar deitada olhando cenas aleatórias em um canal de televisão. Deixo e sei que uma hora levantarei dali. E nestes momentos a querida depressão não pode se aproximar. Está no contrato. (Rs).

Refazer mentalmente todo o caminho que já percorri também é ótimo, já que o atrativo maior à rapariga depressão é nos momentos em que palavras como “inútil”, “medíocre”, “impotente” e “estacionada” teimam em me definir. Sou ansiosa, o que complica a eficácia da frase “tudo a seu tempo”. Comigo não rola muito disso, então, eu olho para trás e fico com as boas sensações e conquistas, ao invés de olhar somente para um futuro que ainda não me aponta muito de concreto. Essa é mais uma forma, uma tática, de enganar a senhora depressão. Uma distração para que ela não ataque. Para que ela não se aproxime.

Adianto a vocês que mandar aquele bom e velho jargão: “pense que você poderia estar na miséria, não ter uma casa, nenhuma perspectiva de vida” NÃO funciona. Somos seres dinâmicos, queremos andar. Isso identifica ambição que nos atravessa o tempo todo. Essa também é uma danadinha entre nós, humanos. A travessa “ambição”. Mas ela seria pra outro texto. Por esse jargão que vos falo não funcionar é que, também, sabemos que depressão é uma forma de agir sobre o mundo que não escolhe classe social ou situação estrutural de vida. Ela é eclética. Ô se é.

E PAREM de atribuir a ela a definição “frescura”. Só parem. Ela é uma existência factual entre nós e, cada vez mais, ganhará espaço e se tornará a soberana das Américas. Logo: OLHEM para ela. Sem julgamento moral, do contrário, será muito pior. Flores viçosas não existem o tempo todo. Dias de sol não são constantes. Pétalas pelas calçadas, pedaços inertes de flores que já estiveram inteiras também são belas e dignas de afago. Assim também quando a depressão é a maior companheira de caminhada de alguém. Merece e deve ser olhada.

Talvez aqui o mais importante: Mirem no fundo dos olhos dos que estão à sua volta. Você vai identificar um pedacinho que seja desse mal que nos assola com tanta força e poder de destruição. Foda-se o que “pode parecer”. Vai parecer nada além de humanidade. E não seria a falta dessa querida em negrito justamente o crescimento da vilã depressão? Talvez com a retomada dessa refugiada de nós mesmos possamos modificar esse quadro. Pintá-lo mais suave, harmônico e, quem sabe, confeccionado em muitas mãos.

Pintei muitas telas e rasguei papéis. 

Olho ao lado: nada vejo.

Olho embaixo da cama: nada consta.

Dentro de armários, gavetas, livros: nem uma gota de causa possível.

De repente, um espelho.

E ele me dá tinta, pincel e papel suficientes.

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Massacre-se

Mova o impedimento sobre si

a ponto de pensar-se mais feroz sobre as coisas e as causas.

Faça seu miojo mental

e dificulte a digestão de fenômenos intragáveis.

Contribua à mediocridade humana e cotidiana

permanecendo em seu sofá da misoginia.

Onde está seu deus agora?

Me diz. E com o endereço, já que pessoalmente expressarei melhor o quanto não aguento mais um dia de massacre.

Oi? Sobre mim?

Não.

Quero lhe falar sobre a loucura do mundo.

A necessidade em haver seres não-humanos que, nos cobrindo de terra cotidianamente,

matam minha esperança. Nossa esperança.

Dias melhores.

Dias melhores só em música ruim dos Titãs.

Não acredito não. São tempos e dias de massacre.

É melhor assim. Pensando sob esse parâmetro fica mais fácil se acostumar

com o chicote no lombo

com a fala hipócrita

com o corte de verbas

com o discurso de ódio

com a falta de amor

c

co

com

com o

ser (des)humano.

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A poeira dos nós

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Empoeirados somos, estamos, cada dia mais. Ando por ruas repletas de poeiras, pedaços infindos de pele morta; de gente sem cor; de maneirismos doentios. Estamos, mesmo os mais jovens, acreditando que amar é como dar um tiro no escuro. Talvez seja mesmo. Mas… por que deveria ser assim?

A cada dia que acordamos, repetimos mais o jargão: “amar hoje é um ato revolucionário” uns aos outros. Que pena. Quem dera fosse um movimento espontâneo, belo, rotineiro. Quem dera admitíssemos estar apaixonados a cada instante em que nos ocorre este fenômeno. Porque é isso. Apaixonamo-nos o tempo todo por pessoas bonitas (no mais amplo sentido desta expressão, não nos padrões do que é ou não beleza). Nos intimidamos ao imaginar que deva ser algo a guardar-se sob sete chaves, não gritado aos quatro ventos. Como erramos em agir assim. Deveria ser um destes momentos de festa, em que os seres humanos celebram a vida, como em nascimentos de rechonchudas crianças. Mas não. Fizemos questão de, ao longo das gerações, reiterar o amor, o apaixonamento, como uma espécie de fraqueza.

“Homens: não demonstrem afeto em demasia, já que a rapariga pensará que estás aos pés dela e, sendo assim, sua honra será reduzida”.

“Mulheres: não demonstrem a aceleração cardíaca que sofrem ao mirar tal rapaz, já que lhe parecerá muito fácil”.

“Homens: não amem outros homens. E se o fizerem, escondam tal sentimento. Não é coisa de homem, não é natural”.

“Mulheres: não amem mulheres. Não é natural e fere gravemente o pudor que deves manter sob sigilosa e constante vigilância”.

“Homens e mulheres: Não acreditem que seja honorável amar sem serem amados. Na na ni na não. É sinal máximo de fraqueza prosseguir”.

Cansa. Toda ladainha em torno das mais alucinadas opiniões sobre amores e romances me embrulham o estômago. Porém, o que nós, gerações que nasceram em época igual ou após os ditos anos 1980 temos feito para que este tipo de quadro seja alterado? São falas que nos parecem originárias da Idade Média. Porém, sim, estão sempre sendo atualizadas e repetidas. Prosseguimos reproduzindo os modelos de criação de nossos avós, bisavós, pais e mães? Ou estamos construindo, mesmo que a passos de formiga, criaturas humanas diferenciadas?

Gostaria de não mais ver tanta poeira nos olhos que encaro diariamente. Gostaria que as pessoas se amassem mais. Gostaria que se permitissem muito mais do que o fazem hoje. Gostaria que a expressão “eu gosto de fulano, fulana”, não fosse motivo de rechaço ou risos.

E gostaria que não nos preocupássemos tanto em sermos correspondidos. E nisto me incluo. Ninguém é obrigado a gostar de ninguém. Gostamos porque gostamos. E é isso. Aí está o tiro no escuro novamente. Pra que mantermos uma nuvem sombria sobre nossas cabeças a cada “não” que ouvimos, ou mesmo aquele olhar que não fez com que a noite terminasse em romance fosse motivo para mais um luto/derrota?

Seria tão mais tranquilo se mantivéssemos como bandeira o fato de termos gostado/amado/quase morrido por pessoas bacanas, humanas, amáveis e isto resultar em sorrisos. Não mágoas. E, quando encontrarmos pessoas cruéis ou aquelas que chamamos “psicopatas do cotidiano”, aí sim, ficássemos pesarosos por não termos percebido antes.

O Ego é uma criança tinhosa que comanda nossas reações. Converse com o seu. Ele pode ser amistoso contigo. Ou feroz e mesquinho.

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Do afeto que afaga traumas (ou: o lado bom do 29 de abril de 2015)

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Aquele dia 29 havia sido o pior dos meus, até então.  Humilhados fomos, tivemos nossas cabeças pisoteadas por um homicida que detém muito do poder deste nosso Estado frio e tão – já calejado por esta direita torpe e doente. Hoje a representação física, e não mais somente simbólica deste lado da força política que temos, existe com nome, pronome e sobrenome. Pela primeira vez em anos, preferi estar longe daquela praça. Nunca fui de me ausentar de movimentos sociais e por pedidos insones de mais direitos. Desta vez, a preservação de algo que já é do funcionalismo estadual, estava por esvair-se. Por mais que tivesse prometido a mim, e à quem escutasse, que não mais lutaria por um Estado que elege, ainda em primeiro turno, alguém como o excelentíssimo governador, não consegui.

Mas hoje quero falar das flores que este dia fez nascer em meio a um cenário asfáltico e nublado. Pessoas que chegaram à magnitude da dor que tantos de nós sentimos, estenderam sua consciência e força até estes calos, estas feridas abertas que ainda custam em cicatrizar. Puseram suas mãos à disposição de um trabalho também doloroso, mas necessário. Acompanhei alguns momentos de bastidores desta equipe a quem me refiro e seria mesquinho não compartilhá-los.

Estas mãos, em total acolhimento e sensibilidade, produziram fotos maravilhosas, um documentário (e um livro em gestação) que simplesmente contempla muito do sofrimento que vivemos naquele dia e, principalmente, a denúncia comprometida em ser de conhecimento do máximo de civis possível. Fui uma das convidadas a fazer um depoimento à câmera. Ultrapassei um obstáculo que me parecia intransponível: o terror a filmagens e essas coisas. O apoio necessário para que eu o conseguisse estava nos olhos que me receberam para começarmos a gravar. Consegui, não somente por mim, mas por todos os que apanharam moral, politica e fisicamente na capital do Estado.

Eu encontrei, nestes olhares diversos, muito da força que eu precisava para prosseguir. Para, aos poucos, voltar a dormir oito horas diárias, e não mais as cinco que me perseguiam continuamente, e de trilha sonora característica de um quadro de stress pós-traumático. Eu vi, na vontade em disseminar estes documentos, o quanto estávamos contemplados em nossa dor. Percebi que os registros feitos estavam para além do universo jornalístico a que esta equipe pertence. Estava em utilizar dos recursos que lhes cabiam para que nada fosse silenciado ou amenizado por qualquer veículo midiático parcial.

Sofreram (sofremos) censura local. Mas prosseguiram. Esquentaram seus neurônios por toda uma tarde para que fotos tivessem um tempo de estadia num dos maiores redutos de direitismos da cidade da qual escrevo. Prosseguiram. Conseguiram. Tiveram suas conclusões sobre o quão baixa esta camada da população local pode ser. E, mais que isso, da importância de seu trabalho, para além de qualquer outro momento de suas histórias.

Identifiquei nestes olhos a vontade e mobilização. Recebi os olhares dos quais necessitava para entender que a luta não acabou, em nenhum momento. Mirei a eles, de maneira agradecida por tudo que fizeram e têm feito. Direcionei meus mais calorosos aplausos. Emociono-me, enquanto redijo estas linhas, de maneira incontrolável, já que o que temos vivido parece mais surreal que qualquer Van Gogh conseguiria retratar. E, principalmente, por lembrar destas pessoas com orgulho, como há muito não me ocorria. Orgulho por serem trabalhos engendrados e com registros do mais alto mérito, como nunca antes feito nestas terras em que nasci. Orgulho por ter estas pessoas por perto, com a resistência e subversão de que tanto nos sentimos na obrigação em nutrir.

Só me resta a gratidão, neste momento. Meu coração ainda sangra por aquele dia. Mas aquele ’29’ ter recebido a atenção e carinho destas pessoas, como foi, faz com que o descompasso seja menor. Faz com que meus passos saibam aonde ir. Se o que mais me doeu foi, no dia seguinte, andar pelas ruas da minha cidade, e não sentir que quaisquer daqueles transeuntes sabiam o que tinha ocorrido, ou mesmo qualquer olhar de solidariedade ao que vivi, esta dor, ao menos, passou.

O choro ainda existe e é inevitável. Mas eu sei em que mãos segurar para que ele seja menos doloroso ou indignado.

obs: Este texto nasce em homenagem à toda equipe que fez nascer o documentário “Massacre 29 de Abril”, assim como os envolvidos na produção do livro que está para sair e da exposição itinerante de fotos, sem citar nomes (já que provavelmente me esquecerei de muitos). 

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Aconteceu de novo (ou: “Puts!!”)

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Pois é. Aconteceu de novo. Apaixonamento, paixão, loucura, tesão, encantamento, admiração. O que desejarem nominar para esse “estado” em que me encontro. Mais essa fucking vez. Acontece que eu mesma não queria, sabe? Talvez por não me sentir apta, ainda, para todo esse reboliço que percorre (e complica) a gente quando o coração resolve abrir-se nova e sorrateiramente a outro alguém. Não darei muitos detalhes sobre o foco de pensamento atual (o cara, no caso). Até porque, né, quem me conhece faz uma ideia de como seja a figura. Sim, gente, exatamente nesse estilo que vocês pensaram. E, obviamente, por eu ter feito a descoberta recentemente, prefiro manter o sigilo, já que ele não sabe, ainda (ao menos penso eu), sobre minhas intenções “malévolas” para com ele (hehe).

Mas há algo que posso contar. O que mudou. O que já não é “mais do mesmo” nesta situação. Percebo que consegui, finalmente, entender a paciência que certos sentimentos exigem. Este é o ponto chave de maior evolução minha no quesito “relacionamentos e afins”. Como diria Chico, incessante em meus pensamentos, “Não se afobe não, que nada é pra já”. Jamais pensei que isso me faria tanto sentido como agora. Acredito que, em muito, é a boa e velha preguiça em entrar num possível jogo de azar, que nada mais é, a mim, que a tentativa de duas pessoas (seduzidas e sedutoras entre si) se acertarem. Preguiça mesmo. Tomar a iniciativa de algumas coisas, principalmente. Já acelerei tantos processos, sem necessidade, com isso, que hoje percebo que não é algo que deva fazer parte de mim. Hoje, quem diria, a preguiça é mais minha amiga que outrora.

E digo mais: nós sempre temos amores que parecem nunca findar. E que cremos piamente que assim o será, infinito, sem jamais nos dar o sossego em sequer uma noite de pensamentos desejosos de retorno. Mas, não. Eles se vão. Vão sim. Sofremos? Opa, sempre os maiores sofredores que habitam essa terra. Ninguém jamais, a nosso ver, sofreu mais. Incríveis as voltas que a vida dá e de forma tão simples e generosa. Acredito mesmo na generosidade da vida. Por mais que ela nos seja tantas vezes doloridas. Essa cafetina safada chamada vida.

Se ele corresponde essa paixão que nasce em mim? Sei não… e não me interessa saber (nesse momento). O que me deixa num estado pleno de contentamento é ter consciência de que aquele cadáver que me habitava o coração já não mais me ocupa. E isso só me mostra que estou viva, interna e externamente, sabe? E que consigo, ainda, virar as páginas para que novas sejam por mim escritas.  Nada é mais incrível que sentir-se viva. Nada. Sorrir com sinceridade e desejo, sabe? Rir à toa, retomar o tesão por projetos pessoas. Caralho. É bom demais.

As flores voltaram a chamar-me à atenção, as borboletas voltaram a revirar o estômago até então tão, mas tão, deprimido. Adrenalina me corre nas veias acelerando este quase – coração novamente. Meus olhos voltaram a brilhar na presença de alguém que me  causa todas estas reações. E é tão bom, sabe? Eu quase chego a desejar muitas decepções amorosas. Por saber que novas paixões sempre virão. Mas não provocarei o Universo quanto a isso. Vai que se transforma em profecia e viro a versão feminina de Vinicius?

(risos)

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Da produtividade da solidão.

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Tenho percebido quão melhor sou, eu, nesta modalidade. Só, sozinha, somente. Falo de solidão, isso, essa mesma. Não solitude e sua brandura. É solidão que sinto na carne, na alma.

Na lama.

Menosprezam, obviamente, este “estado de espírito”. É ótimo quando conseguimos dela extrair o melhor sumo. Aquele em que, mesmo que haja multidões em torno de ti, você está conectado a si, escrevendo um texto, anotando versos. Nada dessa volúpia coletiva te tira do centro. Do eixo, do espelho que te guarda e está sempre ao alcance da mão. Poder incrível que há neste pequeno significado. Sempre que faço minhas retomadas “auto-históricas”, percebo isso. Percebo a grandeza e a beleza de, vez ou outra, sentir-se só. A “náusea” sartreana nem sempre é dolorida. Praticá-la, com certa constância, faz com que se torne produtivo (do ponto de vista emocional, que fique claro) este remoer de dores e indagações.

Hoje posso dizer, finalmente, após a última queda que tive, que estou esvaziada. Sou um recipiente vazio, com meus conteúdos formadores em seu devido compartimento, obviamente. Quando me refiro ao “vazio” que contemplo, é o literal. Isso. Esvaziar-se é necessário para que o novo chegue. Esvaziei-me de dores, excessos desnecessários, pesos que só faziam latejar crânio e coração.

É bom, sabe? Por isso não tenho medo, sequer vergonha, de falar desta escolha em ser e ficar, por tempo indeterminado, nestes esvaziamento e solidão. Aproveito mais o que tenho dentro de mim construído. O que sou, o que me tornei. E isso é ótimo, este “degustar” de mim mesma é o que sempre mais gostei em mim. Nada do que os outros vêem, mas isto, esta parte ínfima de mim que se aprecia. Se gosta e se admira pelo que ama, faz e expressa.

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Avant Gard

 

Quando não se sabe aonde ir, quando não há lugar que te contenha ou em que possa estar contido, solte-se. Livre-se de amarras contemporâneas.

 

A vida torna-se mais suave. Quem sabe não seja disso que estejamos precisados?!

 

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