“Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro” (ou: volta, Belchior).

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Há decisões nessa vida que deveríamos cumprir, ao menos em uma porcentagem. Qual a dificuldade em mantermos palavras, deliberações que, por mais contraventoras ou controversas, são para nossa sobrevivência? As horas desta nossa geração escorrem pelas mãos e nos atravessam sem pedir licença alguma. Corremos por uma estrada pelo simples prazer (e necessidade, dizem) em correr. Correr e sempre mais.

Com pressa e sempre mais.

Sem oxigênio e sempre menos.

Sem coração e sempre.

Conviver com a expressão “moral e bons costumes” é de nausear qualquer ser humano que seja humano. Julgamentos diversos sobre quaisquer condutas tomadas por qualquer humano tornam minha existência mais pesada. Conviver em sociedade (ou ter de) me faz pensar o quanto somos canibais da subjetividade alheia. É o inferno em sua plenitude, sendo os carrascos pintados em contos bíblicos, bem da verdade, nós mesmos. E ponto.

Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro.

Morri com cada passo em falso que dei no sentido ao colo do outro. Não sabia dizê-lo vazio, até destroçar minha cara ao chão.

Morri a cada exercício de fanatismo, característica humana esta que percorre todos os hábitos e rituais humanos. Foi como se um membro meu fosse arrancado do corpo a cada cena desta categoria. E, a saber: dos mais exacerbados até os mais sutis. Estes últimos quase não detectáveis aos olhos e ouvidos nossos.

Morri a cada ato de egoísmo. A cada ausência de mãos estendidas para levantar outro ser vivo de sua queda ao chão (subjetiva ou não).

Morri a cada ausência de humildade em espaços onde ela é mote contínuo para que algo funcione.

Morri a cada olhar invejoso sobre qualquer, repito, qualquer acontecimento em uma vida outra. E que está aí para ser vivida, afinal.

Morri por ter praticado um pouco (ou muito) de cada item desta lista.

Mas esse ano eu não morro.

Morri pelas pessoas conhecerem somente uma parte deste eu que vos fala. E, principalmente: a parcela a que dou menos importância dessa subjetividade. E isto, amigos, é passível de morte.

Essa mania em estabelecer padrões para a vida em coletivo tem o talento de ocasionar a perda de um “eu” que é extremamente importante. A sensação de perder-se de si é um dos sinais dessa patologia que somos nós, humanos. O respeito ao “ser” do outro é raríssimo.

Neste novo-ano-novo não morramos. Não assim. Que cometamos erros outros, erros novos, não os mesmos de 1800 d.C.

Ano passado eu morri.

Mas esse ano eu não hei de morrer.

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Quando um historiador me possibilitou insights (ou: da adicção que é o FB).

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Tenho muitos vícios. De linguagem, organização, os que permeiam os pragmatismos para que eu consiga seguir vivendo. Meu funcionamento obsessivo começou a ficar fora do meu espaço de percepção e reconhecimento nas últimas semanas. Estranhei, ao retornar de uma maravilhosa viagem de visita a amigos e amigas que, enquanto com eles estava, a vida parecia plena em sua beleza. E, assim que retornei à vida que nunca deixou de me esperar, no território onde realizo minhas intervenções mais cotidianas e imediatas, uma tristeza assolou toda minha subjetividade. O desespero imediato foi: não havia nome ou razão explícita para este “estado” em que me percebi. Permiti que a tristeza tomasse mais espaço na tentativa de, assim, dando voz a ela, encontrar sua razão de existir.

Comparei-me fora e dentro do meu contexto: o que havia mudado de um fim de semana, para a segunda imediatamente em sequência? Eu não havia acessado uma vez sequer o facebook. Mas ainda com esta dica maravilhosa, nada encontrei. Até que, numa das noites que se seguiram, os insights iniciaram seu lindo movimento e as coisas ficavam cada vez mais clarificadas e óbvias. Vou contá-las a vocês de maneira objetiva. Tão objetiva que elencarei em tópicos, para que fique mais palpável. Refletindo sobre o que mudou em mim após a chegada desta rede social, em todos estes anos de uso assíduo, uma enxurrada de elementos me atravessaram instantaneamente. São eles:

  • Tornei-me preguiçosa além do aceitável. Comecei um movimento de ler manchetes sem necessariamente abri-las em uma nova página.
  • Passei a deixar as notícias, de todas as esferas, me afetarem em demasiado, sofrendo a cada novidade relacionada ao cenário político nacional, internacional, às questões de violências diversas, enfim, tudo.
  • Passei a ver a felicidade das pessoas expostas nesta vitrine como motivo de percepção do meu fracasso enquanto ser humano, afinal, eu não fazia sequer metade do que as mais bem-sucedidas que eu fazem (isso seria minha neurose falando, aos berros. Se é verdadeiro ou não este ‘fracasso’, já não tenho certeza).
  • Como consequência dessa afetação das vitrines alheias, comprei minha própria vitrine e entrei no mesmo fluxo. Todo e qualquer motivo de minha felicidade passou a ser compartilhada (até porque, dada a “concorrência”, não havia muitos motivos para contentamentos). Uma nova flor que se abria no jardim: fb. Uma receita nova: fb. Um novo local de atuação profissional: fb. Até minhas pretensões passaram a ser expostas ali.

Como consequência imediata, estranhei, ao encontrar amigos em outra cidade, não haver muito o que contar, sequer elementos que eles quisessem saber sobre mim. Por quê? Eles já acompanhavam os incessantes e cansativos processos pelos quais eu atravessava e era atravessada – via fb. E não é óbvio?

Não para mim e, tenho certeza, também não o é a muitos. Eu sequer cogitava esse excesso de vida virtual, como uma extensão do meu corpo orgânico e subjetivo. Hoje percebo e sigo na tentativa de, por meio das possíveis abstinências, crescer e voltar a me singularizar, independentemente e alheia a esta rede social. Dentre os elementos que percebi serem motivos causadores de tamanho desconforto e que transformou minha vida em um só tom de um gigantesco cinza, estão:

  • Toda e qualquer atividade que é realizada em plataformas como Google transforma-se em anúncios na sua timeline, no fb. Isso é insuportável.
  • As notícias chegavam aos meus olhos e subjetividade em um ritmo aceleradamente incontrolável. Mesmo das páginas que, obviamente, eu escolhi seguir. Muitas delas com os mesmos tópicos de notícias entre si.
  • Toda e qualquer afirmação preconceituosa, polêmica ou ignorante, por parte de pessoas que estão contidas na minha TL, gerava angústia inenarrável de minha parte, com mãos e pés atados para qualquer providência que quisesse tomar.
  • As páginas que sigo e que têm site próprio, para além do domínio facebookiano pararam de ser, por mim, acessadas. Afinal, tudo que elas noticiariam estaria ali em instantes.
  • A felicidade exposta pelas pessoas passaram a ter tom de ilegitimidade e o tom estrito de necessidade de auto afirmação.

Todos estes pontos elencados vieram à tona de maneira concreta após assistir uma passagem do historiador Leandro Karnal sobre a felicidade postada e vendida em redes sociais como, de fato, uma droga que exige de seu usuário sempre uma dose maior (vídeo abaixo). Parecem constatações óbvias e que todos e todas já temos consciência no “contrato inicial” deste uso, como consumidores que somos. Porém, a  mim, não parecia tão grave, sério e com consequências alarmantes neste ponto. Sempre selecionei muito bem quem ‘seguir’, que páginas acessar, que pessoas acompanhar. Mas acabei provando de meu próprio veneno: engajamentos, sofrimentos, percepções sobre o mundo e a vida, todos reunidos em uma só página, com atualizações constantes. E todos motivos de extrema empatia e identificação minhas. Sim, pode parecer motivo de saúde mental, já que foi a maneira que escolhi de arquitetar o que eu gostaria ou não de visualizar. Mas não, em grande medida só proporcionou maior dor, maior sofrimento, maior impotência, maior pessimismo em relação ao estado das coisas.

Eu quero acessar matérias nos momentos em que me dispor a isto. Voltar a acessar páginas nas quais confio, sem maior ou menor pressa, somente no meu tempo. MEU TEMPO. A avalanche de informações não me cabe mais. É sofrimento em demasia e que acaba por esgotar todas as minhas forças antes mesmo de o combate ter início. Sei que estas mesmas pessoas de quem compartilho angústias, posicionamentos políticos, dentre tantos outros, estarão ombro a ombro comigo nas batalhas que virão. Porém, virtualidade não faz revolução, nunca fez. As desconstruções que fazemos nestes espaços são pueris, frágeis. Hoje, olhando para essa página azul marota, percebo sua única função de manter contato com pessoas que me são importantes e que não estão imediatamente ao alcance de meus braços, e é confortável pensar que lá estarão, para uma conversa inbox. Espero ainda me desvincular desta percepção mas, enquanto ela me serve, que seja. Senti-me no dever de compartilhar destas percepções a quem quiser acessá-las. Talvez, a partir deste meu processo de tomada de determinadas consciências, mais pessoas o façam, antes que seja ‘tarde’. Não desejo a ninguém o estado em que me percebi, justamente pelo uso acumulado e excessivo do fb.

Hoje já consigo ver com olhos outros tudo que circunda minha vida, ficar feliz com a forma como ela se compõe e vem se construindo. Consigo o início de uma desvinculação dessa “Sociedade do Espetáculo”, como nos traz o pensador Guy Debord (livro este que super recomendo). Sinto-me tão feliz comigo e com mais esse passo que dei! Tomadas de consciência são essenciais para que prossigamos crescendo. E, talvez, meios como fb estejam nos impedindo de sermos o máximo de nossa potência na prática, no corpo a corpo. Pense sobre isso tudo. Desejo a vocês o uso moderado e saudável desse site. Com todo coração. Ver as coisas com mais cores, as ruas com mais vida, as pessoas como elas realmente são é inenarrável. Recomendo.

Fiquem, pra finalizar, com a sabedoria desse mestre dos magos do hoje:

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Da depressão e esse contexto avassalador. Um texto bem sucedido sobre como essa relação é verossímil.

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A proposta desse texto é dar visibilidade a algo que tem me atravessado, assim como condensar as ideias sobre esse fenômeno. Talvez, com sorte (ou azar), você leitor e leitora, identifique-se com estas linhas, ou mesmo conheça alguém que esteja nessa. Vamos lá.

Tenho vivido os meses que contêm esse ano bizarro fundamentalmente dedicados à pesquisa e, por consequência, meu artigo de conclusão da pós que faço é o patrão. Páginas estas que, pretendo, transformem-se em uma proposta também de continuidade. A questão é que para grande parte das pessoas que me circundam, isso não se enquadra em uma forma de trabalho. Esta ótica tem sido por mim combatida com unhas e dentes (quase que literalmente). Óbvio que, em consequência, a pressão externa encontra um caminho sutil e acaba por percorrer as veias de todo meu ser. Transforma-se em pressão interna e a paz tem fim. É difícil lidar.

O foco aqui não é fazer mimimi por isso. Não, senhores. O foco é que identifico, desde o início deste programa de pós-graduação a que pertenço, alguns momentos em que a depressão quase me pegou pelos pés. E isso é, meus caros, a caracterização maciça de um problema. Pintei muitas telas e rasguei muitos papéis para que conseguisse instrumentalizar minha subjetividade e, nessa “onda”, driblar esse famosíssimo mal que tem assolado tantas milhões de pessoas por todo o nosso planeta. Nunca me imaginei nesse “lugar”. Formulei maneiras de trabalhar com esse psiquismo que me contém para que não precisasse voltar à psicoterapia. Casa de ferreiro, espeto de pau. Sim. Sou psicóloga, fiz cinco anos de terapia na vida, mas não, não quero retornar tão cedo. Não por acreditar, como muitos, que seria mais uma fraqueza minha em não poder caminhar sozinha. A questão é que tenho preguiça deste método de retorno à mim. Reencontrar espelhos, reviver discursos, atos falhos, negações…não. Quero não. Não por outra voz que não a minha.

Sim, é resistência. Ok. Prossigamos.

É praticamente impossível, a meu ver, e com minha maneira de funcionamento psíquico, manter-se saudável em plenitude neste contexto pífio em que estamos. Civilização pitu essa nossa. Cenas de tamanha crueza e crueldade a que temos acesso em que, sinceramente, Hannibal, the canibal tornou-se um exemplo de ética (com toda licença poética que me caiba aqui). Já escrevi sobre isso, sim. É que escrevendo, geralmente, eu encontro saídas. E eis aqui mais uma tentativa de. Labirinto sem fim. Nossa existência tem me parecido um jogo de pôquer com deus em que nada é tolerado, a não ser nossa derrota. Somos conduzidos a prosseguir com as apostas, ludibriados, porém, sem chance alguma de atingir o final da partida sem estar devendo um grana alta pra ele. E pior: estamos mais que viciados nessa jogatina. Fico pensando: até quando?

Vocês querem saber como driblei a depressão, certo? Primeiro que este último verbo não deve ser conjugado no tempo passado. Eu faço isso constantemente. Encontrei maneiras que se “encaixaram” bem nas falhas desse meu tetris mental. Eu vejo a depressão como uma sombra distorcida de nós mesmos. A chave é que ela tem possibilidades de dimensões diversas. Em algum momento pode estar ausente; no seguinte, maior que nossa estatura. Por igual, e assim sucessivamente. Sem exatidão, sem constância, sem realidades estanques. Lembremos aqui que depressão não se configura em “estar deprimido”. Não. E pra isso, artigos inúmeros estão aí pra que vocês tenham acesso na web. Depressão ronda, prepara o bote e morde. E a ferida é feia. Caso você a ignore, como muitos o fazem, ela vai gangrenar e arrancar um pedaço seu, senão você por inteiro. Tenha cuidado e atenção. É um conselho.

Eu resolvi olhar para mim sem filtros ou censura. Esse foi o início de um caminho bonito e autônomo. Recolhi-me dos estímulos externos e que acabam por influenciar todo movimento interno. Mas sem radicalismos. Aos poucos, de leve. Respeitando vontades. Caso a iniciativa e desejo em tomar uma cerveja com amigos fosse maior, eu escolhia esse caminho. Olhar para mim foi muito mais possível depois de entrar na prática SwáSthya Yôga. As técnicas corporais, respiratórios e de meditação cumpriram a tarefa de abrirem-me a mim mesma. O acesso ao meu interior hoje é muito mais fácil. Isso não quer dizer que seja um acesso rodeado de margaridas e girassóis. Não. Mas, juro a vocês: eu vi a face da depressão exatamente em frente à minha. Eu a conheci. Segurei em sua mão levemente e permiti que me levasse a conhecer como ela trabalha. Nesta ideia, ela tornou-se uma inimiga extremamente íntima. Tão próxima que, algumas vezes, consegue ser amiga também. Estabelecemos um contrato, depressão e eu, com cláusulas claras (e em constante construção) e objetivas. Eu sou extremamente racional, mental; preciso dessas coisas. O que interessa aqui são as cláusulas centrais: quando eu estiver negando algo, a contratada me mostrará, com a força e método que ela achar mais eficaz. Mecanismos de defesa nem sempre são o melhor caminho à nossa energia psíquica. Eles podem tomar conta de você por inteiro. E não acho bacana. Tornar-me um robô irreconhecível não é uma possibilidade. Outra: ela deve me dar espaço e possibilidade de reação. Ou seja: avisar-me de algo errado em seu início para que eu possa trabalhar isso e, consequentemente, da minha maneira.

Além destes itens contratuais, quando sinto que ela quer me observar muito próxima a meu cotidiano, trabalho com o que está disponível em meu psiquismo de maneira simples. A mais simples possível. Estabeleço tarefas de pequena complexidade em sequência de ação. Dou-lhe prazeres como literatura e música para que descanse. Converso com minha subjetividade para que ela não se sobrecarregue. Linguagem é a melhor invenção do ser humano e eu me aproveito dela. Parece loucura, sei disso. Mas esse diálogo é necessário. Eu respeito se tudo o que mais quero é ficar deitada olhando cenas aleatórias em um canal de televisão. Deixo e sei que uma hora levantarei dali. E nestes momentos a querida depressão não pode se aproximar. Está no contrato. (Rs).

Refazer mentalmente todo o caminho que já percorri também é ótimo, já que o atrativo maior à rapariga depressão é nos momentos em que palavras como “inútil”, “medíocre”, “impotente” e “estacionada” teimam em me definir. Sou ansiosa, o que complica a eficácia da frase “tudo a seu tempo”. Comigo não rola muito disso, então, eu olho para trás e fico com as boas sensações e conquistas, ao invés de olhar somente para um futuro que ainda não me aponta muito de concreto. Essa é mais uma forma, uma tática, de enganar a senhora depressão. Uma distração para que ela não ataque. Para que ela não se aproxime.

Adianto a vocês que mandar aquele bom e velho jargão: “pense que você poderia estar na miséria, não ter uma casa, nenhuma perspectiva de vida” NÃO funciona. Somos seres dinâmicos, queremos andar. Isso identifica ambição que nos atravessa o tempo todo. Essa também é uma danadinha entre nós, humanos. A travessa “ambição”. Mas ela seria pra outro texto. Por esse jargão que vos falo não funcionar é que, também, sabemos que depressão é uma forma de agir sobre o mundo que não escolhe classe social ou situação estrutural de vida. Ela é eclética. Ô se é.

E PAREM de atribuir a ela a definição “frescura”. Só parem. Ela é uma existência factual entre nós e, cada vez mais, ganhará espaço e se tornará a soberana das Américas. Logo: OLHEM para ela. Sem julgamento moral, do contrário, será muito pior. Flores viçosas não existem o tempo todo. Dias de sol não são constantes. Pétalas pelas calçadas, pedaços inertes de flores que já estiveram inteiras também são belas e dignas de afago. Assim também quando a depressão é a maior companheira de caminhada de alguém. Merece e deve ser olhada.

Talvez aqui o mais importante: Mirem no fundo dos olhos dos que estão à sua volta. Você vai identificar um pedacinho que seja desse mal que nos assola com tanta força e poder de destruição. Foda-se o que “pode parecer”. Vai parecer nada além de humanidade. E não seria a falta dessa querida em negrito justamente o crescimento da vilã depressão? Talvez com a retomada dessa refugiada de nós mesmos possamos modificar esse quadro. Pintá-lo mais suave, harmônico e, quem sabe, confeccionado em muitas mãos.

Pintei muitas telas e rasguei papéis. 

Olho ao lado: nada vejo.

Olho embaixo da cama: nada consta.

Dentro de armários, gavetas, livros: nem uma gota de causa possível.

De repente, um espelho.

E ele me dá tinta, pincel e papel suficientes.

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Massacre-se

Mova o impedimento sobre si

a ponto de pensar-se mais feroz sobre as coisas e as causas.

Faça seu miojo mental

e dificulte a digestão de fenômenos intragáveis.

Contribua à mediocridade humana e cotidiana

permanecendo em seu sofá da misoginia.

Onde está seu deus agora?

Me diz. E com o endereço, já que pessoalmente expressarei melhor o quanto não aguento mais um dia de massacre.

Oi? Sobre mim?

Não.

Quero lhe falar sobre a loucura do mundo.

A necessidade em haver seres não-humanos que, nos cobrindo de terra cotidianamente,

matam minha esperança. Nossa esperança.

Dias melhores.

Dias melhores só em música ruim dos Titãs.

Não acredito não. São tempos e dias de massacre.

É melhor assim. Pensando sob esse parâmetro fica mais fácil se acostumar

com o chicote no lombo

com a fala hipócrita

com o corte de verbas

com o discurso de ódio

com a falta de amor

c

co

com

com o

ser (des)humano.

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A poeira dos nós

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Empoeirados somos, estamos, cada dia mais. Ando por ruas repletas de poeiras, pedaços infindos de pele morta; de gente sem cor; de maneirismos doentios. Estamos, mesmo os mais jovens, acreditando que amar é como dar um tiro no escuro. Talvez seja mesmo. Mas… por que deveria ser assim?

A cada dia que acordamos, repetimos mais o jargão: “amar hoje é um ato revolucionário” uns aos outros. Que pena. Quem dera fosse um movimento espontâneo, belo, rotineiro. Quem dera admitíssemos estar apaixonados a cada instante em que nos ocorre este fenômeno. Porque é isso. Apaixonamo-nos o tempo todo por pessoas bonitas (no mais amplo sentido desta expressão, não nos padrões do que é ou não beleza). Nos intimidamos ao imaginar que deva ser algo a guardar-se sob sete chaves, não gritado aos quatro ventos. Como erramos em agir assim. Deveria ser um destes momentos de festa, em que os seres humanos celebram a vida, como em nascimentos de rechonchudas crianças. Mas não. Fizemos questão de, ao longo das gerações, reiterar o amor, o apaixonamento, como uma espécie de fraqueza.

“Homens: não demonstrem afeto em demasia, já que a rapariga pensará que estás aos pés dela e, sendo assim, sua honra será reduzida”.

“Mulheres: não demonstrem a aceleração cardíaca que sofrem ao mirar tal rapaz, já que lhe parecerá muito fácil”.

“Homens: não amem outros homens. E se o fizerem, escondam tal sentimento. Não é coisa de homem, não é natural”.

“Mulheres: não amem mulheres. Não é natural e fere gravemente o pudor que deves manter sob sigilosa e constante vigilância”.

“Homens e mulheres: Não acreditem que seja honorável amar sem serem amados. Na na ni na não. É sinal máximo de fraqueza prosseguir”.

Cansa. Toda ladainha em torno das mais alucinadas opiniões sobre amores e romances me embrulham o estômago. Porém, o que nós, gerações que nasceram em época igual ou após os ditos anos 1980 temos feito para que este tipo de quadro seja alterado? São falas que nos parecem originárias da Idade Média. Porém, sim, estão sempre sendo atualizadas e repetidas. Prosseguimos reproduzindo os modelos de criação de nossos avós, bisavós, pais e mães? Ou estamos construindo, mesmo que a passos de formiga, criaturas humanas diferenciadas?

Gostaria de não mais ver tanta poeira nos olhos que encaro diariamente. Gostaria que as pessoas se amassem mais. Gostaria que se permitissem muito mais do que o fazem hoje. Gostaria que a expressão “eu gosto de fulano, fulana”, não fosse motivo de rechaço ou risos.

E gostaria que não nos preocupássemos tanto em sermos correspondidos. E nisto me incluo. Ninguém é obrigado a gostar de ninguém. Gostamos porque gostamos. E é isso. Aí está o tiro no escuro novamente. Pra que mantermos uma nuvem sombria sobre nossas cabeças a cada “não” que ouvimos, ou mesmo aquele olhar que não fez com que a noite terminasse em romance fosse motivo para mais um luto/derrota?

Seria tão mais tranquilo se mantivéssemos como bandeira o fato de termos gostado/amado/quase morrido por pessoas bacanas, humanas, amáveis e isto resultar em sorrisos. Não mágoas. E, quando encontrarmos pessoas cruéis ou aquelas que chamamos “psicopatas do cotidiano”, aí sim, ficássemos pesarosos por não termos percebido antes.

O Ego é uma criança tinhosa que comanda nossas reações. Converse com o seu. Ele pode ser amistoso contigo. Ou feroz e mesquinho.

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Do afeto que afaga traumas (ou: o lado bom do 29 de abril de 2015)

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Aquele dia 29 havia sido o pior dos meus, até então.  Humilhados fomos, tivemos nossas cabeças pisoteadas por um homicida que detém muito do poder deste nosso Estado frio e tão – já calejado por esta direita torpe e doente. Hoje a representação física, e não mais somente simbólica deste lado da força política que temos, existe com nome, pronome e sobrenome. Pela primeira vez em anos, preferi estar longe daquela praça. Nunca fui de me ausentar de movimentos sociais e por pedidos insones de mais direitos. Desta vez, a preservação de algo que já é do funcionalismo estadual, estava por esvair-se. Por mais que tivesse prometido a mim, e à quem escutasse, que não mais lutaria por um Estado que elege, ainda em primeiro turno, alguém como o excelentíssimo governador, não consegui.

Mas hoje quero falar das flores que este dia fez nascer em meio a um cenário asfáltico e nublado. Pessoas que chegaram à magnitude da dor que tantos de nós sentimos, estenderam sua consciência e força até estes calos, estas feridas abertas que ainda custam em cicatrizar. Puseram suas mãos à disposição de um trabalho também doloroso, mas necessário. Acompanhei alguns momentos de bastidores desta equipe a quem me refiro e seria mesquinho não compartilhá-los.

Estas mãos, em total acolhimento e sensibilidade, produziram fotos maravilhosas, um documentário (e um livro em gestação) que simplesmente contempla muito do sofrimento que vivemos naquele dia e, principalmente, a denúncia comprometida em ser de conhecimento do máximo de civis possível. Fui uma das convidadas a fazer um depoimento à câmera. Ultrapassei um obstáculo que me parecia intransponível: o terror a filmagens e essas coisas. O apoio necessário para que eu o conseguisse estava nos olhos que me receberam para começarmos a gravar. Consegui, não somente por mim, mas por todos os que apanharam moral, politica e fisicamente na capital do Estado.

Eu encontrei, nestes olhares diversos, muito da força que eu precisava para prosseguir. Para, aos poucos, voltar a dormir oito horas diárias, e não mais as cinco que me perseguiam continuamente, e de trilha sonora característica de um quadro de stress pós-traumático. Eu vi, na vontade em disseminar estes documentos, o quanto estávamos contemplados em nossa dor. Percebi que os registros feitos estavam para além do universo jornalístico a que esta equipe pertence. Estava em utilizar dos recursos que lhes cabiam para que nada fosse silenciado ou amenizado por qualquer veículo midiático parcial.

Sofreram (sofremos) censura local. Mas prosseguiram. Esquentaram seus neurônios por toda uma tarde para que fotos tivessem um tempo de estadia num dos maiores redutos de direitismos da cidade da qual escrevo. Prosseguiram. Conseguiram. Tiveram suas conclusões sobre o quão baixa esta camada da população local pode ser. E, mais que isso, da importância de seu trabalho, para além de qualquer outro momento de suas histórias.

Identifiquei nestes olhos a vontade e mobilização. Recebi os olhares dos quais necessitava para entender que a luta não acabou, em nenhum momento. Mirei a eles, de maneira agradecida por tudo que fizeram e têm feito. Direcionei meus mais calorosos aplausos. Emociono-me, enquanto redijo estas linhas, de maneira incontrolável, já que o que temos vivido parece mais surreal que qualquer Van Gogh conseguiria retratar. E, principalmente, por lembrar destas pessoas com orgulho, como há muito não me ocorria. Orgulho por serem trabalhos engendrados e com registros do mais alto mérito, como nunca antes feito nestas terras em que nasci. Orgulho por ter estas pessoas por perto, com a resistência e subversão de que tanto nos sentimos na obrigação em nutrir.

Só me resta a gratidão, neste momento. Meu coração ainda sangra por aquele dia. Mas aquele ’29’ ter recebido a atenção e carinho destas pessoas, como foi, faz com que o descompasso seja menor. Faz com que meus passos saibam aonde ir. Se o que mais me doeu foi, no dia seguinte, andar pelas ruas da minha cidade, e não sentir que quaisquer daqueles transeuntes sabiam o que tinha ocorrido, ou mesmo qualquer olhar de solidariedade ao que vivi, esta dor, ao menos, passou.

O choro ainda existe e é inevitável. Mas eu sei em que mãos segurar para que ele seja menos doloroso ou indignado.

obs: Este texto nasce em homenagem à toda equipe que fez nascer o documentário “Massacre 29 de Abril”, assim como os envolvidos na produção do livro que está para sair e da exposição itinerante de fotos, sem citar nomes (já que provavelmente me esquecerei de muitos). 

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Aconteceu de novo (ou: “Puts!!”)

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Pois é. Aconteceu de novo. Apaixonamento, paixão, loucura, tesão, encantamento, admiração. O que desejarem nominar para esse “estado” em que me encontro. Mais essa fucking vez. Acontece que eu mesma não queria, sabe? Talvez por não me sentir apta, ainda, para todo esse reboliço que percorre (e complica) a gente quando o coração resolve abrir-se nova e sorrateiramente a outro alguém. Não darei muitos detalhes sobre o foco de pensamento atual (o cara, no caso). Até porque, né, quem me conhece faz uma ideia de como seja a figura. Sim, gente, exatamente nesse estilo que vocês pensaram. E, obviamente, por eu ter feito a descoberta recentemente, prefiro manter o sigilo, já que ele não sabe, ainda (ao menos penso eu), sobre minhas intenções “malévolas” para com ele (hehe).

Mas há algo que posso contar. O que mudou. O que já não é “mais do mesmo” nesta situação. Percebo que consegui, finalmente, entender a paciência que certos sentimentos exigem. Este é o ponto chave de maior evolução minha no quesito “relacionamentos e afins”. Como diria Chico, incessante em meus pensamentos, “Não se afobe não, que nada é pra já”. Jamais pensei que isso me faria tanto sentido como agora. Acredito que, em muito, é a boa e velha preguiça em entrar num possível jogo de azar, que nada mais é, a mim, que a tentativa de duas pessoas (seduzidas e sedutoras entre si) se acertarem. Preguiça mesmo. Tomar a iniciativa de algumas coisas, principalmente. Já acelerei tantos processos, sem necessidade, com isso, que hoje percebo que não é algo que deva fazer parte de mim. Hoje, quem diria, a preguiça é mais minha amiga que outrora.

E digo mais: nós sempre temos amores que parecem nunca findar. E que cremos piamente que assim o será, infinito, sem jamais nos dar o sossego em sequer uma noite de pensamentos desejosos de retorno. Mas, não. Eles se vão. Vão sim. Sofremos? Opa, sempre os maiores sofredores que habitam essa terra. Ninguém jamais, a nosso ver, sofreu mais. Incríveis as voltas que a vida dá e de forma tão simples e generosa. Acredito mesmo na generosidade da vida. Por mais que ela nos seja tantas vezes doloridas. Essa cafetina safada chamada vida.

Se ele corresponde essa paixão que nasce em mim? Sei não… e não me interessa saber (nesse momento). O que me deixa num estado pleno de contentamento é ter consciência de que aquele cadáver que me habitava o coração já não mais me ocupa. E isso só me mostra que estou viva, interna e externamente, sabe? E que consigo, ainda, virar as páginas para que novas sejam por mim escritas.  Nada é mais incrível que sentir-se viva. Nada. Sorrir com sinceridade e desejo, sabe? Rir à toa, retomar o tesão por projetos pessoas. Caralho. É bom demais.

As flores voltaram a chamar-me à atenção, as borboletas voltaram a revirar o estômago até então tão, mas tão, deprimido. Adrenalina me corre nas veias acelerando este quase – coração novamente. Meus olhos voltaram a brilhar na presença de alguém que me  causa todas estas reações. E é tão bom, sabe? Eu quase chego a desejar muitas decepções amorosas. Por saber que novas paixões sempre virão. Mas não provocarei o Universo quanto a isso. Vai que se transforma em profecia e viro a versão feminina de Vinicius?

(risos)

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